Exposição de Maria Inês Martins
Curadoria: Milton Machado
Novembro de 2023
Geometria da água
Geometria da água
Um dia desses, visitando o ateliê de Maria Inês Martins na companhia de Beth Rocha, perdi-me entre suas pinturas. Aos poucos, fomos organizando a profusão, em busca de possíveis coordenadas. Sim, eram uma profusão, capazes de provocar esbarrões. Muito verde, muito azul, muita floresta, muita planta, muita paisagem, muita palmeira, muita natureza, muito rio, muito mar, muita canoa, muito mundo sobre muitas telas. E gente, muita gente sobre tela. E gravuras, e desenhos, e cartões, livros e ilustrações...
E eu? que no meio de tamanha balbúrdia não parava de pensar em... Rothko. Rothko???
Teria ajudado minha insistente fixação se tivéssemos, ali à mão, imagens, não de trabalhos das fases finais do pintor, mas sim de trabalhos dos anos 1940. Pinturas com a fluidez da água: as nuvens de Rothko são promessas pluviais, prometem inundações. Mas, ao invés de transbordar, flutuam, prenhes de algum futuro. Toda imagem em Rothko é promessa de imagem. Toda pintura de Rothko é promessa de pintura. As pinturas dos anos 1940 tinham uma leveza repousada de insetos, que não caberiam em nenhum tratado, senão como casos particulares, desvios, seres de peculiar anatomia. Têm algo de libélulas, de vaga-lumes, de flor.
As paisagens de Rothko são terras de extraterrestres. Daí as nuvens, talvez.
Pois eis aí algum sentido, algum percurso possível, alguma aproximação: toda pintura (de Inês, de Rothko, do homem que traçou a carvão seu próprio contorno projetado pelo fogo nas paredes da caverna), é promessa de pintura.
1. A pintura de Inês é líquida, feita por velaturas. A pintura de Inês é transparência e cor. Por certo agradaria a um Tiziano, com suas infinitas camadas. Ruskin talvez opinasse: "pinturas como que pintadas com vassouras", foi como avaliou o genial Tintoretto, pintor de velocidades, com quem Tiziano implicava. Ora, não seriam todas as pinturas (feitas de) transparência e cor? Não seriam todas as pinturas (feitos de) densidades? Não seriam todas as pinturas como que pintadas com vassouras?
2. A pintura de Inês é habitada. Quem habita essas paragens, essas cidades, ilhas, paisagens?, se couber aqui alguma geografia, alguma história. Ora, quem as habita são pessoas, gente que gosta de planta, de rio, de viajar. Para onde? Só perguntando, porque essas pinturas não entregam nomes, não de lambuja, não identificam lugares, senão como aparições, anunciações, promessas eventuais. Mas deixam pistas. Sigamos.
3. Quem pilota esse navio cujo destino final é Havana? Que guerrilhas estarão planejando os líderes barbados da revolução para garantir o sucesso das revoluções? O que espera o vulto do nadador semi-invisível prestes a mergulhar nas águas transparentes de uma piscina azul? Quem é a moça bonita que rema seu Mururu nas águas do Solimões antes de virar mulher inaugurada? De que matéria (vegetal, por certo) são feitas essas gravuras que se reproduzem sem fim, tal qual ervas daninhas, contrariando a lógica contábil que se espera das tiragens? Essas palmeiras construtivas, com jeito de geometria que brotam dessas gravuras com seu jeitão de pintura: pretendem constituir alguma estrutura, como se fossem arquitetura? Ora, se não são isso o que são? Plantas, cortes, perspectivas? Memórias descritivas?
4. Que reflexos são esses que esclarecem e iluminam as varandas, os panos de vidro, as esquadrias desse moderno edifício na Gávea? Ou daquele familiar condomínio capixaba? Seriam tais reflexos ainda tributários dos grids, das malhas ortogonais renascentistas, dos cubos ópticos de Brunelleschi, dos andaimes que garantem o equilíbrio instável das pinturas, desde Giotto, desde Piero della Francesca, desde Poussin, desde Cézanne? "Cada vez que me afasto de um Poussin tenho uma ideia melhor de mim mesmo" (Cézanne). O que faz Inês ter uma ideia melhor de si mesma? Talvez (fazer) pintura seja uma boa ideia. Cada vez que nos aproximamos de um Rothko...
5. Quem é Lucas? Quem é Tiago? Quem é Flávia? Quem é Paula? Quem é Ana Maria? Quem é Franklin? Quem é Mario? Quem é Dinah? Quem é Ceciliano? Quem é esse menino com as mãos guardadas nos bolsos da bermuda? Quem é aquele rapaz posando de pescador todo prosa com seus dois peixes na mão?
Quem é Maria Inês?
Quem é Rothko? Rothko fazia parte do grupo dos Irascíveis. Pollock também. E Barnett Newman. E de Kooning. E Stamos. E Gorki. E Motherwell. E Kline. E Baziotes. E Gottlieb. E Tomlin. E Brooks. E Stamos. E Reinhardt. E Sterne. E...
Turminha braba! A família de Inês é numerosa, mas ela nada tem de irascível. Ao contrário, é uma flor, de peculiar natureza. Talvez brotada de palmeiras.
6. Já que falamos de Newman, ele disse: "Em 1940, alguns de nós despertamos sem esperanças, quando descobrimos que a pintura realmente não existe... Esse despertar teve a força exaltada de uma revolução. Foi esse despertar que gerou a aspiração... de começar do zero, de pintar como se a pintura jamais tivesse existido. Foi aquele momento despojado e revolucionário o que fez com que pintores se tornassem pintores".
Maria Inês, você já descobriu que a pintura realmente não existe? Antes de responder, vá lá dentro correndo e traga-nos – peça emprestadas! – as vassouras de Tintoretto.
Milton Machado
outubro 2023