Artistas: Beth Rocha e Rita Coppos
Curadoria: Julie Brasil

Outubro de 2024

O azul do tamanquinho e o verde dos seus olhos

"O olho vê, a lembrança revê, a imaginação transvê."

Manoel de Barros

 

O azul do tamanquinho e o verde dos seus olhos

O azul do tamanquinho e o verde dos seus olhos são mais do que apenas cores. A metáfora cromática traz o entrelaçamento de dois mundos, de duas perspectivas que, embora distintas, se complementam. Rita Coppos e Beth Rocha, amigas, aluna- professora e cúmplices, nos mostram que a arte, assim como a amizade, é um espaço de trocas, de reflexões e, acima de tudo, de criação e compartilhamento.

Rita, cuja infância foi tocada pelo azul turquesa de um par de tamanquinhos, traz à sua arte a vivacidade e a liberdade que esses calçados simbolizam. Como Heidegger sugere em "Ser e Tempo", o mundo não é um lugar em que as coisas se encontram, mas antes uma totalidade de significação na qual elas adquirem sentido. O mundo é a abertura que doa possibilidades de ser. Os tamanquinhos de Coppos são um portal para as paisagens que percorreu, e cada traço de seu pincel, é uma estrada que se desdobra em telas.

Beth, por outro lado, empresta à exposição o verde generoso de seus olhos — janelas abertas para a alma, como os descritos por Virginia Woolf em "Mrs. Dalloway": "Eram olhos através dos quais a vida não apenas se observava, mas também se sentia". Rocha captura a essência do efêmero e o eterniza em cerâmica, com a franqueza de quem sabe que todo ato de criação é, primeiro, um ato de destruição. Em cada pintura, em cada instalação, ela acomoda não apenas formas, mas sentimentos e memórias, forjando-os com a delicadeza conhecedora do coração humano.

Rita transporta-nos para um mundo onde o real e o imaginado coexistem em jardins fantásticos, repletos de flores que dançam ao vento, mais que meras paisagens; são cenários de um teatro onde a sobreposição de elementos arquitetônicos do Rio —cobogós, azulejos, e grades — trazem existências de tempos coloniais, modernos e atuais. A série "La vie en rose" concebe não apenas um apelo visual através do rosa predominante, mas também uma filosofia de vida, inspirada na figura literária de Pollyanna, que busca o belo e a felicidade mesmo frente às adversidades. As interferências sobre fotografias apagadas de família insuflam vida, tal qual um palimpsesto onde passado e presente se encontram, como se pudesse, ao repintar as imagens, proporcionar-lhes retroativamente uma vida mais amena.

Entre a arte e a educação, Beth molda o barro em corpos cerâmicos, cria vasos onde o vazio interior ressoa com possibilidades: além de serem contemplações sobre a forma, revelam diferentes sons e temperaturas, como conchas que sussurram segredos do mar. Cada recipiente é um "ser do abrigo", um convite para olhar além do óbvio e encontrar significados mais profundos sobre a essência das coisas. O gesto de amassar condensa a ideia de tocar e ser tocado pela terra, e suas cerâmicas são testemunhas da beleza na imperfeição, cada peça um universo onde limitações se tornam diálogos criativos.

Lado a lado, as duas artistas permitem que seus partos conversem entre si. Os visitantes podem testemunhar como as pinceladas de Rita, que por vezes se dissolvem em atmosferas quase etéreas, encontram eco nas formas orgânicas e fluídas de Beth. Nos interstícios de suas artes, os verdes e os azuis se entrelaçam, tecendo uma coreografia delicada que dança nas fronteiras entre a materialidade, o abstrato e a figuração. É como se a pintura buscasse tocar a escultura e a escultura, por sua vez, quisesse se expandir em cor. Nas telas, não raro, manchas e fundos criados por uma artista reciprocamente se transformam em figuras centrais para a outra, numa fusão que transcende a individualidade de cada criação.

"O azul do tamanquinho e o verde dos seus olhos" é, portanto, uma celebração da amizade, da arte e da interação humana, explorando como Rita e Beth podem harmonizar-se, uma na outra e nas suas obras, os contornos de um afeto que se expande além das telas e das cerâmicas. No esforço infinito da arte do corpo se tornar mundo, somos convidados a sentir mais profundamente, a ver mais claramente, a amar mais generosamente.

No Vietnã, a palavra xanh é usada tanto para o azul como para o verde. A série homônima desta mostra é um encontro a quatro mãos, com direito a raios de outros frequentadores do ateliê Cedro da Gávea. Nele, o colóquio intercultural e cromático reflete a experimentação de suas interações artísticas, em que as cores são pretextos para discussões mais amplas sobre percepção e realidade.

Xanh como o céu ou xanh como a floresta?  Não há resposta certa, mas caminhos onde cada um encontra as próprias cores. A arte transforma o espaço da galeria em um organismo vivo, pulsante, um lugar onde cada visitante pode se ver refletido nas cores, formas e texturas, penetra no território da emoção, da existência e do poder transformador do encontro.

Julie Brasil